Vivemos um contexto de transformação acelerada. A geopolítica deixou de ser um pano de fundo distante para se tornar uma variável direta nas decisões operacionais de qualquer cadeia de abastecimento.
Nos últimos anos, a logística deixou de ser vista apenas como uma função operacional focada em transportar, armazenar e distribuir produtos. Hoje, as cadeias de abastecimento são influenciadas por fatores globais que vão muito além do controlo das empresas. Conflitos geopolíticos, tensões comerciais, alterações nas políticas energéticas, preocupações com a segurança do abastecimento e novas exigências regulatórias passaram a fazer parte do quotidiano dos gestores da cadeia de abastecimento.
A escolha do tema “Geopolítica e Logística: Cadeias em Transformação” surgiu precisamente da necessidade de compreender esta nova realidade.
As empresas encontram-se num momento em que já não basta procurar eficiência e redução de custos, é necessário desenvolver cadeias mais resilientes, capazes de responder rapidamente à instabilidade e à incerteza.
Ao mesmo tempo, estamos a assistir a uma aceleração da digitalização, da automação e da utilização da inteligência artificial, fatores que estão a alterar profundamente a forma como as cadeias são planeadas e geridas.
Diria que a geopolítica é, hoje, o principal catalisador da transformação das cadeias logísticas porque condiciona decisões que têm impacto direto nos fluxos globais de mercadorias. Uma guerra, uma alteração nas relações comerciais entre países ou uma restrição à circulação de determinadas matérias-primas pode provocar efeitos imediatos nos custos, nos prazos de entrega e na disponibilidade dos produtos.
Rotas que dávamos como garantidas, fornecedores que considerávamos estáveis, mercados que pareciam previsíveis — tudo isto está hoje sujeito a um grau de incerteza que exige de nós não só resiliência, mas verdadeira capacidade de antecipação. Tarifas, controlos de exportação e a concentração de inputs críticos em poucos fornecedores mostraram-nos, nos últimos anos, como um único ponto de disrupção pode paralisar cadeias inteiras assentes em modelos just-in-time. A resposta que vemos emergir não é o abandono da eficiência, mas a sua reconciliação com a resiliência — através da diversificação de fontes e da regionalização de operações.
Ao mesmo tempo, uma segunda força transformadora avança em paralelo: a convergência entre tecnologia e talento humano. A inteligência artificial, a automação e a digitalização deixaram de ser promessas de futuro para se tornarem ferramentas do presente.
…a geopolítica é, hoje, o principal catalisador da transformação das cadeias logísticas porque condiciona decisões que têm impacto direto nos fluxos globais de mercadorias.
Já não falamos apenas de IA que sugere e recomenda — falamos de IA agêntica, capaz de decidir e agir: reencaminhar uma expedição, realocar inventário, acionar um fornecedor alternativo, no momento em que um sinal de disrupção é detetado. Falamos de digital twins que nos permitem simular cenários de crise antes de os vivermos, e de automação que se tornou padrão operacional nos nossos armazéns.
Mas esta transformação não é isenta de exigências. Quanto mais confiamos em sistemas autónomos para decidir por nós, maior é a nossa responsabilidade em garantir governação, transparência e rastreabilidade dessas decisões. E nenhuma destas tecnologias entrega valor sobre dados de má qualidade — a maturidade dos nossos dados continua a ser, para muitas organizações, o verdadeiro limite à ambição tecnológica. Por fim, e talvez o mais importante: esta não é uma transformação que dispensa pessoas — é uma transformação que exige mais delas.
Requalificação de equipas, novas funções ligadas à gestão destes sistemas, e uma gestão de mudança cuidada são tão essenciais ao sucesso desta jornada como a própria tecnologia.
É precisamente na interseção destas duas forças — a geopolítica que exige resiliência, e a tecnologia que exige reinvenção — que este congresso encontra o seu tema central: o impacto das dinâmicas geopolíticas, da IA, da automação e da digitalização na gestão das cadeias de abastecimento.
Este foi o tema do Congresso, que foi desenhado para inspirar e promover a reflexão sobre temas tão relevantes e que estão a afetar as pessoas e as empresas.